Um navio chamado "mercado"

Por João Batista Ferreira

PARTE I

“Impossível abandonar a embarcação que navega em alto-mar, em meio a uma tempestade, com os passageiros intoxicados”

O quadro desenhando em minha mente é o de estarmos em alto-mar, a bordo do navio “Mercado Global”, enquanto a meteorologia indica ‘Convergência Tropical”. O pessoal de terra – o governo - terá grande dificuldade para chegar até a embarcação, que pode ficar à deriva. Impossível abandonar um navio que está em águas profundas, com ondas gigantescas e forte turbulência. Portanto, relaxe e pense como você vai conviver com a situação e relacionar-se com a tormenta, pois parece ser a única saída.

Alguns países, e grupos de países, detêm, mais que outros, os conhecimento sobre a criação de produtos e serviços com maior “taxa de desejo” na praça do mercado global. Tornaram-se fortes e, no contexto das trocas internacionais , seus “papéis-moeda” adquiriram mais poder de troca que os “papéis-moeda” de outros países. Assim, ficaram conhecidos como “países desenvolvidos”.

Em todas as “Praças do Mercado”, são três os pilares de sustentação: Produtos e Serviços, Sistema Monetário e Consumidores. O Sistema Monetário globalizou-se. Todos os países imprimem seus papéis-moeda - obedecendo à disciplina instituída pelo Federal Reserve, o emissor de papéis dos EUA - em troca dos Treasure Bonds.

E não há a menor possibilidade de extirpação de um país desse sistema monetário, porque o Mercado “é” a intercorrelação social dos segmentos. Seria possível realizar, sim, uma cirurgia, uns ajustes mais ou menos delicados, mas é impossível esse organismo não reagir à intervenção, por menor que seja.

Comparando o Mercado a um organismo, estamos vivendo um momento de convulsões e infecção generalizada, sintomas de uma viirulência que se espalha globalmente com uma rapidez impressionante. E os “sistemas de saúde”, leia-se “países”, não têm como atender aos doentes, a maioria esmagadora sem plano de saúde. E o corpo médico também está se infectando.

A crise financeira global na qual estamos imersos funciona mais ou menos como uma desagradável e inesperada infecção generalizada do “Mercado”. Uma doença nova, desconhecida, e estamos ainda longe de desenvolver uma vacina contra ela.

Aparentemente, tudo começou com o Sistema Monetário. Arriscando uma abordagem contábil para esse caos, diríamos que o valor das aplicações das moedas sofreu um decréscimo jamais visto de forma tão disseminada. Mas, como é preciso que as origens (passivo) sejam iguais às aplicações (passivo), tem que haver um ajuste. E quem mais sofre é o Disponível: Caixa e Bancos.

Quem tem caixa, sobrevive por mais tempo. Os demais amargarão perdas, muitas delas irreparáveis e com reflexo desastroso para seus funcionários = emprego.. Salvo com uma condição: a família juntar os trocados e resolve ajudar, o que pode fazer apenas por algum tempo. Mas, se a família também entrar em recessão, então estaremos numa grande enrascada. Lamentavelmente, parece ser bem esse o caso em questão!

Os governos de plantão passaram – uns mais que os outros – a usar reservas - e emitir moeda - para salvar as empresas em dificuldade de caixa. Mas o problema não estava na qualidade ou no desejo dos produtos e serviços das empresas. O problema estava no “Ativo Circulante”, intoxicado com moeda tóxica misturada às verdadeiras. Os consumidores ficaram desconfiados e pararam para pensar melhor antes de gastar seu precioso papel-moeda. Os fornecedores ficaram desconfiados e sem crédito para produzir.

Pronto: instalou-se uma encrenca que se espalhou por onde essas moedas circulam. O sistema que imprime o dólar, a moeda mais aceita globalmente, ficou tão intoxicado que há uma espécie de alergia e aversão a qualquer operação cujo valor seja calculado com base nele.

Fábrica de dólar, o FED admitiu que a contrapartida de seus negócios (Títulos do Tesouro Americano) podem perder valor – salve Obama! O pior de tudo é que se descobriu que existe muitos dólares esquisitos circulando no mercado: os “Dólar-Madoff”, em quantidade tão grande que sequer o FBI consegue detectá-los. Mas, e a pergunta que não cala: serão apenas os “Madoffs” ?

Resumo da ópera: Agora vale quem tem “caixa”, “cash”, pois muita gente anda dizendo ter “ativos disponíveis”, mas os valores não correspondem ao declarado. Temos que encontrar uma saída,tão logo consigamos descobrir uma camada de proteção.

No Fórum Econômico de Davos e no Fórum Social de Belém, essas questões se entrelaçaram na busca de um novo modelo de proteção, “um outro mundo, sustentável”, algo que blinde as sociedades neste desarranjo geral.

João Batista Ferreira
Titular da j2b mkt

Publicado na Revista Cliente S/A em Maio de 2009

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